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Volta da Pampulha 2017

Dia daquela foto mais do que tradicional, que repito todo ano! A de 2017 vem depois de aproximadamente 1h53 de muito suor. Até mais ou menos uns 12k eu aguentei; dali em diante, foi na raça mesmo, na vontade de chegar e conquistar a memória.

Quem corre sabe bem como é isso. Não sei se conseguiria explicar bem para quem não corre.

Claro que há uma certa mística belo-horizontina na Volta da Pampulha. Talvez ela seja nosso grande evento esportivo. Participar dela é um desses gestos que sinto que me conectam com a cidade.

Toda vez que cruzo aquela linha de chegada penso com emoção em quando a Volta começou a ser realizada, lá nos idos dos anos 90, e eu, totalmente sedentário na época, nem imaginava que um dia eu iria participar. Achava legal e tudo, mas aquilo parecia fora da minha perspectiva, de modo que existe sim um gostinho de superação envolvido.

Cada pessoa ali tem uma história no mínimo parecida. Ninguém põe um tênis e sai correndo 18 quilômetros. Quem chegou ali tem alguma estrada. Muitas vezes ela é trivial. em outras, é realmente emocionante. Peguei, por exemplo, um pedacinho de conversa de um grupo em que um participante, ex-alcoólatra, de chegar a passar a noite na sarjeta, pôs a vida em ordem porque decidiu correr. Há inúmeras histórias bonitas assim no meio das catorze mil pessoas, e sentir que estou de algum forma envolvido nisso mexe comigo.

Acontecem várias surpresas inesperadas, como o encontro com meu querido colega Waldemar, que deixei para trás na saída, mas que me alcançou logo depois do décimo quilômetro, para sumir de vista. Houve também uma moça que, mais ou menos no quilômetro 14, cantarolou um - unzinho só! - verso de "Hey Jude" justamente quando passou por mim. Parecia um recado de um anjo, naquela altura em que a gente já fica em dúvida se vai mesmo conseguir concluir o percurso. Esse tipo de coincidência sempre me toca.

Há as lições de humildade, como a que um senhor de pelo menos uns 70 me deixou, quando, já entrando nos últimos mil metros, simplesmente passou por mim e me deixou para trás. Alguém lá na beirada gritou para ele: "Seu Fulano! Meu herói!". Que legal, ser o herói de alguém!

A chegada em casa depois, com a roupa ainda encharcada de suor e a medalha pendurada no pescoço, é uma delícia. Hoje ainda, subindo a Afonso Pena, ganhei a visão transcendental de uma Serra do Curral totalmente encoberta por neblina. O banho pós-corrida é o melhor de todos: vai relaxando os músculos e fazendo escorrer aquele suor grosso e arenoso que fica grudado no corpo. Vem aquele cheiro bom da limpeza. A gente passa o resto do dia em uma espécie de descanso.

E, claro, a experiência deixa aquele sabor da contravenção, da rebeldia, da resistência; aquele gosto bom que só quem nada contra a maré sabe como é. A vida vem ficando tão, tão, tão difícil; tão cheia de entraves, de limitações, de exclusões, de concessões de todo tipo, de preocupações. Como é difícil manter qualquer coisa! Chegar ao final do ano e constatar que essa pequena trincheira de independência e realização ainda está assegurada é muito reconfortante e me ajuda a redescobrir o desejo, a força e a esperança para comprar outras boas brigas também.

É por isso que mesmo vendo mil problemas na Volta da Pampulha eu continuo participando: porque, no final das contas, esse é um momento de descobertas e reencontros, duas experiências que ajudam a vida a ter sentido.

 



Escrito por Professor Guilherme Lentz às 17h34
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Dia dos professores

Todo mundo já sabe aquela história de que, no Japão, só o imperador não tem que se curvar ao imperador - como se o imperador, aliás, estivesse nessa posição graças ao estudo. Também já se sabe que todo  profissional depende dos professores, que eles são os verdadeiros heróis da nação e assim por diante. Que diferença isso faz na prática?

Não sou sensível a elogios. Valorizo a humildade, mas sou arrogante o bastante para saber o que estou fazendo e para que minha autoestima profissional não dependa do depoimento que um Fulano qualquer por aí tenha colocado nas redes sociais. 

O que quero saber é quando a remuneração das horas extras, uma contingência no exercício do megistério, entrará em pauta no Brasil. Sem a resolução dessa simples questão, nenhum discurso, por mais bonito e apaixonado que seja, vai me convencer de que há algum respeito pelo professor.

Quero saber quando é que os sábados letivos serão regulamentados, remunerados, pagos como hora extra, o que seria o mínimo aceitável. Sem isso, não faz sentido sequer começar a falar sobre respeito.

Quando é que as professoras da educação infantil passarão a receber uma remuneração digna? Quando é que conversaremos sobre a produção intelectual que se faz dentro das escolas? Nem vou relembrar aqui a precariedade das escolas, a crescente agressividade de alunos e pais, os interesses comerciais e políticos envolvidos no sistema de ensino, o engessamento dos procedimentos escolares, o alijamento do professor de sua própria prática, o simples valor da hora-aula, entre muitas outras questões que estão envolvidas nesse tema e que nunca são lembradas a sério, e, quando são, a discussão nunca caminha para efetivações mais concretas. 

Nós estamos vulneráveis de toda forma. De vez em quando, um ex-aluno me procura agradecendo a contribuição e pedindo desculpas pelas traqunagens e queixas do passado. Eu fico feliz que alguém consiga amadurecer e colocar a cabeça no lugar, mas, quando isso acontece, para o professor já é tarde demais: aquelas queixas do passado resultaram em demissões, em reduções de carga horária, em perda do capital político dentro das escolas, em boicotes a várias iniciativas que poderiam ter sido produtivas. A educação é um processo de longo prazo, mas lida com todo tipo de exigências imediatistas e interesseiras.

Onde é que estava todo esse apoio ao professor nesses momentos? Quando vamos falar sobre isso?

Vamos parar com essa conversa abstrata sobre a valorização do professor e efetivamente concretizar essa valorização. No momento, não vejo nenhuma perspectiva concreta de que algo nesse sentido possa vir a acontecer. Pelo contrário, há vários movimentos significativos na direção oposta ganhando forma e força. Dentre esses, eu destacaria a tecnicalização do ensino, ou seja, a concentração, em poucos nichos, do trabalho intelectual, que então é enviado a filiais para ser simplesmente reproduzido ou aplicado pelo professor, reduzido ao papel de um mero técnico repetidor. Destacaria também o crescimento de um discurso de vilanização do professor, colocado como doutrinador, intransigente, resistente a mudanças, defasado tecnologicamente e assim por diante. Existe ainda a questão do endeusamento da tecnologia, do uso de índices de aprovação como indicadores de competência do professor, da falácia de metodologias alternativas miraculosas, entre muitos outros óbvios problemas que são manipulados interesseiramente para que sejam percebidos como soluções e que têm como único objetivo a desvalorização do professor e a efetivação de planos massificadores de educação, que não têm nenhum compromisso com a qualidade da educação dos jovens brasileiros. 

Desde criança ouço falar sobre as mazelas da educação brasileira e percebo a insinuação tácita de que alguma esperança haveria no horizonte; quanto mais as décadas avançam, porém, mais percebo que a situação só piora, e que o discurso da promessa realmente parece ter como objetivo bloquear reações construtivas. 

Enfim, o momento é sombrio. Eu sou professor, eu tenho amor pela causa da educação e desejo de contribuir para ela. Tenho pessoalmente uma situação confortável, porque trabalho em boas escolas, que em muitos aspectos representam exceções dentro desse sistema; não falo, portanto, necessariamente sobre mim. Falo como professor brasileiro. A situação é angustiante, e no momento não vejo motivo para comemoração. 

Acho que seria mais responsável, em vez de memes anestesiantes e palavras de bajulação, erguermos bandeiras mais relevantes e encararmos a sério as mudanças que devem ser feitas no caso de, como povo, querermos de fato uma educação de qualidade no Brasil - no caso de querermos. 




Escrito por Professor Guilherme Lentz às 19h54
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Escrita e lazer

Dança, joguinho, piada, musiquinha, boate, efeitinhos coloridos na tela, nada disso ensina a ler ou escrever melhor. Não conheço uma exceção.

Você pode até achar que é divertido, que o trabalho fica leve, e assim ter alguma ilusão interesseira a esse respeito, mas aprender, você não aprende. Há uma tendência muito forte a se confundir educação com entretenimento, e até a se exigir entretenimento da educação.

O que ensina a ler e escrever bem é leitura cotidiana e diversificada, vivência cultural e prática de reescrita. Experiência de vida com sensibilidade também ajuda, mas isso muitas vezes já é consequência dos mesmos bons hábitos. A gente, na sala de aula, dá uma pequena ajuda, principalmente com a reescrita e alguns pressupostos técnicos, mas, sem o substrato, a máquina pouco sai do lugar.

Se você é alguém que tem uma vivência textual, pode até tirar algum benefício daquelas outras práticas, como tirará de tudo mais com que topar na vida. Não coloque seu mérito no lugar errado.

Não estou falando de postagem de Facebook nem de bilhete para a mãe. Para isso a gente nem precisa de aprendizado.

Nem estou dizendo que escrever tem que ser árduo, no sentido do sofrimento. A escrita pode, claro, trazer prazer, como traz, a partir do sentimento de realização, da satisfação de se ver um pensamento construído e bem apresentado. Alguns de nós podem até encontrar um bem-estar físico no silêncio profundo da cadeira, no abraço da mesa, na aspereza do papel e no reconfortante rosnar do grafite no papel, mas nem todos são sensíveis a isso. Para muitos, o prazer da escrita é bem diferente daquele que vem da festa, da comida e do simples lazer.



Escrito por Professor Guilherme Lentz às 10h09
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Popularidade de Cristo

Peguei um pedacinho do documentário "It was 50 years ago" na Netflix e assistia ao trecho em que se mostra todo o fuzuê em torno da famosa declaração do John, que teria dito que "os Beatles são mais populares que Jesus Cristo".

Tudo ali. Como uma frase se tornou bombástica após ser retirada de seu contexto, onde não havia causado nenhuma comoção, e, meses depois, foi alçada a causadora de uma polêmica absurda. A gente vê multidões frenéticas, esbravejando histericamente, sem nenhum conhecimento de causa, sem nenhum entendimento do que tinha acontecido, simplesmente reagindo um comando que parecia mais ou menos e que havia vindo sei lá de onde, a palavras de ordem de agentes, muitas vezes, igualmente ensandecidos, cegos por incompreensão, por ignorância, por preconceito, por vaidade, até por limitações cognitivas, em alguns casos; outras vezes, maldosos, com interesses espúrios, cientes do mal que causavam.

Do outro lado, um John Lennon assustado, impotente, tentando mil vezes o inútil exercício da explicação, do esclarecimento, da tentativa de colocar os fatos diante dos olhos de todos, só para perceber que tinha mais uma vez caído em uma armadilha, até finalmente começar a perder sua serenidade e simplesmente desistir.

Me lembrou demais o Brasil de hoje. Temos visto demais esse movimento: alguém vem, tenta organizar a mesa, mostrar os pingos nos is, mas só acha ódio, ódio, ódio, ódio ensandecido e um frenesi absolutamente impenetrável.

Bom para o John que ele tinha, afinal, uma popularidade considerável mesmo. Na vida real, não temos tanta sorte.



Escrito por Professor Guilherme Lentz às 19h23
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77 anos de John Lennon

9 de outubro. Hoje celebramos o 77º aniversário do nascimento do John.

Para mim, a existência dele é uma dádiva muito além das palavras. Nem vou perder tempo repetindo o que já tentei, sem sucesso, dizer um milhão de vezes.

Para o mundo, a situação parece mais melancólica.

Lembro o próprio John, confrontado com o peso de seu legado, respondendo com todo o seu ceticismo: "Que legado? A única diferença é o fato de que as pessoas agora podem usar cabelo comprido". As palavras não eram exatamente essas, mas a ideia era essa aí. Ele estava totalmente consciente da superficialidade das supostas transformações pelas quais sua geração havia sido responsável.

Quem poderia ter imaginado que, em pleno século XXI, depois de tudo que passamos, estaríamos diante dos absurdos que vemos agora? Pai e filho agredidos por serem confundidos com homossexuais; homossexuais agredidos, para começo de conversa; museus sendo atacados; nudez vilanizada; livros sendo proibidos; direitos sendo abolidos; violência institucional sendo aplaudida; preconceitos sendo louvados; racismo, machismo, autoritarismo, radicalismo, moralismo, proselitismo, ismo, ismo, ismo: toda uma gama de deficiências que acreditávamos já ter deixado para trás de nós está aí, de volta, com força total, cheia de si e de virulência.

Nem vamos pensar em problemas maiores, como as guerras, os tiros, a pobreza, as desigualdades, as corrupções e tantos outros que não chegaram sequer a serem tocados significativamente.

Enquanto isso, nós, os que se veem como os progressistas, os abertos, os corretos, nós perdemos o ritmo da história. Demos as conquistas como efetivadas. Não sabemos mais o que fazer. Não temos diálogo, não sabemos penetrar aquela muralha de cães raivosos, a quem apenas assistimos desesperadamente, lançando, no máximo, uma ou outra palavra de ordem, que bate na opressão como pedrinhas lançadas a um muro.

De pedrinha em pedrinha a muralha tombará, rachará, será marcada?

Ficamos tentados a imaginar se o direito de usar cabelo grande é, afinal, tão frívolo assim mesmo. Hoje nos deparamos com situações que mesmo para a mais retrógrada e perigosa das cabeças pareceriam inimagináveis quando o John estava vivo.

Nunca precisamos tanto de John Lennon como agora. Nunca precisamos tanto de alguém que encante, que inspire, que toque corações, que derreta cercas, que congrace, mas também que se erga, que desafie, que ouse - e até, por que não, que coloque suas próprias contradições à mostra.

Que o coração de cada um de nós possa se converter em uma trincheira de onde o imaginar possa articular sua resistência.

Ao John, hoje e sempre, a saudade que ele deixou e o amor que ele inspirou. Parabéns, meu herói! E obrigado por tudo.



Escrito por Professor Guilherme Lentz às 22h22
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John: 77 anos

9 de outubro. Hoje celebramos o 77º aniversário do nascimento do John.

Para mim, a existência dele é uma dádiva muito além das palavras. Nem vou perder tempo repetindo o que já tentei, sem sucesso, dizer um milhão de vezes.

Para o mundo, a situação parece mais melancólica.

Lembro o próprio John, confrontado com o peso de seu legado, respondendo com todo o seu ceticismo: "Que legado? A única diferença é o fato de que as pessoas agora podem usar cabelo comprido". As palavras não eram exatamente essas, mas a ideia era essa aí. Ele estava totalmente consciente da superficialidade das supostas transformação de que sua geração havia sido responsável.

Quem poderia ter imaginado que, em pleno século XXI, depois de tudo que passamos, estaríamos diante dos absurdos que vemos agora? Pai e filho agredidos por serem confundidos com homossexuais; homossexuais agredidos, para começo de conversa; museus sendo atacados; nudez vilanizada; livros sendo proibidos; direitos sendo abolidos; violência institucional sendo aplaudida; preconceitos sendo louvados; racismo, machismo, autoritarismo, radicalismo, moralismo, proselitismo, ismo, ismo, ismo: toda uma gama de deficiências que acreditávamos já ter deixado para trás de nós está aí, de volta, com força total, cheia de si e de virulência.

Nem vamos pensar em problemas maiores, como as guerras, os tiros, a pobreza, as desigualdades, as corrupções e tantos outros que não chegaram sequer a serem tocados significativamente.

Enquanto isso, nós, os que se veem como os progressistas, os abertos, os corretos, nós perdemos o ritmo da história. Demos as conquistas como efetivadas. Não sabemos mais o que fazer. Não temos diálogo, não sabemos penetrar aquela muralha de cães raivosos, a quem apenas assistimos desesperadamente, lançando, no máximo, uma ou outra palavra de ordem, que bate na opressão como pedrinhas lançadas a um muro.

De pedrinha em pedrinha a muralha tombará, rachará, será marcada?

Ficamos tentados a imaginar se o direito de usar cabelo grande é, afinal, tão frívolo assim mesmo. Hoje nos deparamos com situações que mesmo para a mais retrógrada e perigosa das cabeças pareceriam inimagináveis quando o John estava vivo.

Nunca precisamos tanto de John Lennon como agora. Nunca precisamos tanto de alguém que encante, que inspire, que toque corações, que derreta cercas, que congrace, mas também que se erga, que desafie, que ouse.

Que o coração de cada um de nós possa se converter em uma trincheira de onde o imaginar possa articular sua resistência.

Ao John, hoje e sempre, a saudade que ele deixou e o amor que ele inspirou. Parabéns, meu herói! E obrigado por tudo.


Escrito por Professor Guilherme Lentz às 10h32
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Lembrança de quatro anos atrás

Me deu uma saudade de um amigo que eu tinha... Era um sujeito incrível. Tocava em banda, criava canções, fazia poesia, escrevia contos e textos dissertativos, como resenhas, ensaios e análises de obras literárias. Desenhava, fazia arte, subia no pé de pitanga que existia na escola. Lembro que ele tinha brinquedos incríveis: Falcon, Comandos em Ação, Lego, Playmobil, só coisa fina. Era um cara todo apaixonado pelas coisas e pelas pessoas. De vez em quando entrava em neura, fazia análise, emburrava. Em outros momentos ficava todo animado, e era um sujeito de uma doçura incrível. Curtia os amigos, a família, o canto dele. Adorava Beatles e Elvis também. Dedicava-se a eles com minúcia mais do que acadêmica. Quase tudo que sei nessa área eu devo a ele. Lia de tudo, entendia das coisas. Era supercabeça-aberta. Nunca o vi se fechar a uma ideia nova, não importava o que fosse. Foi a primeira pessoa que vi falar com simpatia sobre ter um lado gay, por exemplo, muito antes de essa conversa toda vir à tona em escala mais ampla. Era meio sedentário, mas tinha uns períodos de esforço. Tomara que tenha acabado engrenando em alguma coisa. Putzgrila! Ele era legal demais! E com tudo isso era o melhor aluno da turma, depois o profissional mais dedicado. Era cheio de projetos, de ideias boas na cabeça, que vivia teimando em tentar pôr em prática, mesmo quando encontrava as resistências mais absurdas que a gente sabe como são. Puxa, ele era mesmo legal demais. Eu tenho muita saudade. Algumas partes de mim ardem quando penso nele. Tenho pavor de pensar que ele pode estar sumido. Mas acho que ele está por aí. Deve estar lendo isso. Ele não iria gostar que eu o chamasse pelo nome publicamente, mas vai saber que é dele que estou falando. Espero que esteja por aí, meu chapa. Mas de todo jeito foi/é um prazer ter te tido/ te ter na minha vida.



Escrito por Professor Guilherme Lentz às 11h46
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Falcon sem armas

Sinceramente, estou achando muito exagerado todo chororô em função de o Falcon ter vindo sem armas de fogo. Depois os politicamente corretos é que são reclamões - puxa vida! Quanto mimimi!

Em primeiro lugar: quer armas? A coisa mais fácil do mundo é armar seu Falcon. Além das trocentas milhões de opções de armas em escala 1/6 que existem abundantemente disponíveis por aí - o que, evidentemente, anula a tese de uma suposta "ditadura do politicamente correto" - haveria sempre a opção de simplesmente equipar o boneco com um dentre as centenas de rifles, pistolas ou canhões que a gente tem sobrando de outros modelos e brinquedos.

Em segundo lugar - muito importante! -, cabe lembrar que, como todo fã de Falcon que se preze deve saber, vários modelos originais dos anos 80 vinham sem armas (Não é?), e não me lembro de ninguém aprontando escândalo por causa disso. Inclusive, várias das cartelas de acessórios também eram desprovidas de armas de fogo.

Só posso concluir que o Falcon, coitado, está servindo de bode expiatório para as pessoas reproduzirem mais uma vez o já desgastado discurso do "politicamente correto é chato", "o politicamente correto está acabando com o Brasil" (Ô. É ele mesmo.), "estamos vivendo uma ditadura do politicamente correto" e por aí afora, discurso este que, por sua vez, costuma ser cobertura para outros discursos, menos passíveis de exposição.

Olha, se o medo é esse, pode todo mundo ficar tranquilo: basta uma rápida olhada em volta para constatarmos que o modelo de homem machão, armado e viril continua com plena aceitação, inclusive em praticamente cem por cento dos papéis de heróis, seja no cinema, nos quadrinhos, nos brinquedos ou em qualquer outro espaço que nos possa ocorrer.



Escrito por Professor Guilherme Lentz às 23h34
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A face do Falcon

Foi um susto e tanto descobrir, quanto a internet começou a fornecer ferramentas para isso, que o Falcon havia sido um brinquedo tão marcante para muita gente da minha geração. Graças a isso, comecei naquela época amizades que duram até hoje e que tenho em muito alta conta. 

Parte desse susto estava na descoberta de que, para muitos dos meus colegas, o Falcon teria uma personalidade mais malandra, mais desbocada, como um Nicky Fury ou Wolverine das histórias em quadrinhos. Na cabeça deles, o Falcon falava palavrões, era mais truculento, até mulherengo. 

Eu sempre o havia imaginado com uma personalidade mais apolínea, na linha de paladinos da justiça como Fantasma e o Capitão América, o Super-Homem do Christopher Reeve. Nunca conseguiria imaginar o Falcon gritando algo como "Tá na hora do pau!". 

Em parte, eu baseava essa impressão nas minhas leituras da infância mesmo; em parte, talvez, em modelos que eu tinha por perto; em parte por causa dos poucos traços narrativos que existiam sobre o Falcon, como os disquinhos e as revistinhas, que sempre mostravam um sujeito com uma personalidade mais heroica no sentido do bom-mocismo. 

E, claro, há também o rosto dele. Sempre fui encantado com o rosto do Falcon, mesmo antes de entender isso com clareza. Quando eu era criança, perguntava a minha mãe se ele nos via com os olhos dele e se o cabelo dele crescia como o nosso. Ele me passava esse senso de realidade. 

Hoje, tento explicitar para mim mesmo um pouco mais aquelas percepções. O que esse rosto nos diz? Criança, ele não é; tampouco muito jovem. É um homem feito, mas não tão maduro. Ele tem um olhar sereno e autoconfiante. Certamente está no controle da situação e seguro de suas habilidades. Não tem raiva, nem impulsividade. Ele não é alguém que se atira cegamente ao perigo nem que se deixa intimidar. Sua expressão tem uma nuance de tristeza e melancolia; certamente o Falcon já conheceu perdas e insucessos, certamente ele lida com os sacrifícios e dilemas que dedicar a vida ao bem exige; mas também tem consciência dos limites humanos e da esperança de poder contribuir. Ajudar é um impulso natural, que ele nem questiona; apenas espera estar em condição de concretizar. Ele tem um entendimento tácito das fragilidades e pequenezas humanas, e tem sobre isso um olhar levemente crítico, mas acolhedor e solidário, o que se esboça em um leve quase-sorriso que ele parece sempre prestes a esboçar. Impossível imaginá-lo em desespero ou traindo um de seus princípios, em relação aos quais é muito convicto. Ele tem uma elegância, mas uma elegância que não vem de vaidade, e sim da realização interna de sua humanidade. 

Um amigo, certa vez, me disse que o Falcon havia sido, para ele, mais do que um brinquedo, um modelo de vida. Tive que assinar embaixo.



Escrito por Professor Guilherme Lentz às 23h49
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Carta às provas

Oi!

Aqui vai uma postagem de Facebook que resolvi guardar aqui no blog.

Abraços,

Guilherme 

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Queridas provas,

Mais uma vez vamos nos aproximando do fim de um feriado que vocês e eu passamos assim, juntinhos. Momentos como esse me fazem pensar em como nunca reconheci de verdade o seu companheirismo. Em todos os momentos, bons e ruins, são vocês que sempre estão comigo.

Dia, noite, madrugada; fazendo frio ou calor, chuva ou sol; na saúde e na doença, e às vezes até causando a doença; na alegria e na tristeza, vocês não estão nem aí. No clube, na casa dos pais, no shopping, no teatro, até na igreja. Sábado, domingo, dia de semana, carnaval, semana santa, férias de julho. São vocês que estão sempre lá junto de mim!

No dia do meu casamento, quando outras pessoas se aprontavam, eram vocês que estavam lá, me acompanhando, desde de manhã cedo! Sempre que meu Paulzinho veio, foram vocês que me ajudaram a enfrentar aquelas longas horas na fila. Nas perdas, foram vocês que me receberam de volta dos velórios. Nas doenças, foram sempre vocês que me acompanharam aos hospitais. Nas férias, são vocês as primeiras a entrarem nas malas. Nas festas, muitas vezes são vocês também que estão comigo às mesas, enquanto os outros me dão as costas e vão tomar uma cervejinha e falar de futebol.

Pouco a pouco, os amigos desistiram e sumiram, pararam de convidar, mas vocês não! Vocês continuam sempre aqui, fiéis! Vocês me ajudam a preencher todos os cômodos da casa com sua onipresença!

Se acontece de eu chegar sem vocês, a família cobra: "Uai! Onde está o pacotinho?". Vocês jã são parte de mim!

É por isso que, por vocês, deixei de fazer tudo que me distraía: cantar, tocar, brincar, escrever, construir, estudar, cuidar de outras coisas e de outras pessoas. Graças a vocês, ninguém nunca vai me ver repetindo chavões como "as séries do Netflix acabaram com minha vida social"! Graças a vocês, nunca vou perder meu tempo com novelas, telejornais ou futilidades midiáticas!

Ao longo de todos esses anos, vocês têm sido parte de todos os meus momentos, independentemente de como eu estivesse me sentindo!

É isso. Eu não sei terminar esta declaração. Só queria reconhecer sua presença, dirigir-lhe minhas humildes palavras. Não sei o que pedir ou o que desejar.

Continuaremos!



Escrito por Professor Guilherme Lentz às 19h31
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O alô de 2016

Olá!

Passando pelo blog para dar um aceno aos velhos amigos, com quem tenho conversado pouco. Em primeiro lugar, para lembrar que, no Facebook, estou mais atuante e com assuntos mais diversificados. Quando passarem por lá, me procurem. Em segundo lugar, queria registrar aqui o aparecimento, em nova versão, do herói mais presente em minha vida de adulto: nosso querido Max Steel!

Ele reapareceu em 2016, em uma versão ligeiramente envelhecida do universo do reboot. Se antes tinha talvez uns 16 anos, calculo que agora tenha 19 ou 20. Assisti a um episódio do desenho e não notei grande mudança de atitude que incorporasse isso. Em compensação, peguei um final de temporada que encheu meus olhos de água. Não vou dar spoiler, é claro, mas acho que o que acontece ali é suficiente para abalar o coração de qualquer fã do herói e de sua história!

Tirei umas fotos, mas, como atualmente não tenho editor de imagem no computador, vão ficar meio estranhas na tela. Lá vai:

O contato com essa nova figura me levou a revisitar algumas demandas que minha coleção de Max tem, de modo que em breve terei algumas novidades a apresentar. Espero achar o momento de voltar aqui para partilhá-las!

Abraços,

Guilherme 



Escrito por Professor Guilherme Lentz às 18h41
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Novo blog no ar

Olá!

Caso alguém ainda passe por aqui, gostaria de convidar para conhecer meu novo blog, o Bloguinho. Ele representa uma tentativa de levar notícias e atualidades a meus filhos. Basicamente, quero proporcionar uma leitura de qualidade melhorzinha do que o que eles veem na internet por conta própria.

O endereço é http://bloguinhodosfilhos.blogspot.com.br/.

Abraços,

Guilherme 



Escrito por Professor Guilherme Lentz às 11h59
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Certa vez, em um momento de braveza comigo, mamãe me mandou uma tremenda lição de moral: "Você acha que é muito sabichão, mas não passa de um frasista".

Aquilo doeu na hora, mas sempre achei que foi uma das grandes sortes que tive. No silêncio da calma, iniciei um processo de reflexão e autocrítica. Percebi que a mamãe estava certa e que aquela não era a pessoa que eu queria ser.

Desde então, venho me distanciando cada vez mais daquela postura, alimentando a fruição, a elaboração, o aprofundamento na medida do que consigo.

Hoje questiono se aquela foi a melhor decisão, sabendo, de qualquer forma, que não há mais volta. De repente me vejo cercado de bravatas, de frases de efeito, de aforismos baratos, que parecem exercer um efeito irresistível sobre muita gente, enquanto todo aquele carinho que optei por buscar parece ter cada vez menos espaço. Acho que há um ranço autoritário muito forte.

Não tenho mais vontade de partilhar nada. Estou cansado de diálogos frustrantes ou inexistentes. Estou frustrado e solitário. Se pudesse, ficaria fechado em meu casulo e cortaria o contato com o mundo exterior. Não o faço porque sei que há a chance de algo novo sobre os Beatles surgir. Eles são meu único incentivo à sociabilidade.


Escrito por Professor Guilherme Lentz às 11h27
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Domingo de sol

Domingo produtivo.

Pedalada (fiscal, não: meus impostos, diferentemente dos de certas pessoas, são pagos direitinho) para começar;

depois, café da manhã para conhecer a casa nova da cunhada, um convite gentil e um exemplo que toda pessoa civilizada poderia seguir;

depois, palhinha do show do Pato Fu na Assembleia - que não, não estava funcionando, diferentemente de outras assembleias mais honradas, confiáveis, desinteressadas e desinteressadamente celebradas por aí;

depois, clube com os meninos e amigos, com direito a almoço vegetariano buscado no Carrinho;

depois, preparação de provas e trabalho burocrático de escola, porque nesse país não é só deputado federal que trabalha no final de semana não.

E muito disso com a edição maratonística do "Ride the lightnting" me fazendo companhia pelo Spotify.

Ainda ficaram algumas coisas por fazer, mas agora vou acabar o dia com mais um pouco de "O nome da rosa", um tratado de suspense, de sabedoria, de religião, de beleza, de semiótica, de política, enfim, uma obra que todo brasileiro digno desse nome deveria ter orgulho e se sentir na inclinação de conhecer, mas que graças a suas seiscentas páginas está longe disso. Mas para quem se dispõe é uma delícia.

Tudo somado, acho que foi mais um dia que me deixa no sentimento de ter cumprido meu papel como brasileiro, construindo, no que está ao meu alcance, um Brasil não ainda perfeito, mas pelo menos na direção do que deveria ser.


Escrito por Professor Guilherme Lentz às 19h48
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Mãos estendidas

Quinze anos atrás, meu colega Ari, um sábio, disse, em uma recepção no início do ano letivo, que quem é cristão não pode se contentar em perdoar: tem que ir atrás do perdão; não pode só se predispor a se reconciliar com os inimigos, mas tem que tomar a iniciativa de ir atrás do inimigo e lhe estender a mão. 

 

Ari, meu velho... Não se diz uma coisa dessas a uma pessoa de bom coração. Isso foi das coisas mais perigosas que já ouvi na vida. 

 

Você não faz ideia da quantidade de confusões em que me meti por tentar ser coerente com essa proposta. Quantas e quantas vezes banquei o idiota. Pior de tudo: quantos inimigos, veja que ironia, eu criei. No afã de lhes estender a mão, estranhamente acabei despertando neles o ressentimento, a antipatia, a resistência, até a inimizade, em alguns casos. 

 

Eu hoje tenho ainda menos amigos do que tinha há quinze anos. Fico estupefato com o meu poder de, sendo do bem, gerar inimizade e conquistar antipatias.

 

Mas o pior é que continuo concordando com o conceito da coisa. Continuo achando que a gente tem não só que dar a cara a tapa como também que dar a outra face; tem que se dispor, tem que tomar a dianteira na história de fazer a coisa certa, que compreender, perdoar, consolar e tudo mais. 

 

Sei lá. Acho que sou eu é que não sou competente mesmo para esse negócio de ser cristão. Estou sem coragem de estender a mão aos inimigos. Não é tanto pelos tapas, murros ou a indiferença que recebo de volta, mesmo quando é aquela indiferença espinhentinha, sabem como, mas mais mesmo porque toda vez as coisas acabam ficando piores ainda. Uma outra colega disse, anos depois: "Guilherme, a gente não entra nas portas que não nos foram abertas". 

 

Então, não sei mais o que pensar. Por enquanto, vou mantendo as minhas portas abertas. Não sei mais de nada. 

 

Mas, enfim, como o Natal está aí, me pareceu mais condizente lembrar das mãos estendidas do que das mãos fechadas. 



Escrito por Professor Guilherme Lentz às 20h57
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