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O alô de 2016

Olá!

Passando pelo blog para dar um aceno aos velhos amigos, com quem tenho conversado pouco. Em primeiro lugar, para lembrar que, no Facebook, estou mais atuante e com assuntos mais diversificados. Quando passarem por lá, me procurem. Em segundo lugar, queria registrar aqui o aparecimento, em nova versão, do herói mais presente em minha vida de adulto: nosso querido Max Steel!

Ele reapareceu em 2016, em uma versão ligeiramente envelhecida do universo do reboot. Se antes tinha talvez uns 16 anos, calculo que agora tenha 19 ou 20. Assisti a um episódio do desenho e não notei grande mudança de atitude que incorporasse isso. Em compensação, peguei um final de temporada que encheu meus olhos de água. Não vou dar spoiler, é claro, mas acho que o que acontece ali é suficiente para abalar o coração de qualquer fã do herói e de sua história!

Tirei umas fotos, mas, como atualmente não tenho editor de imagem no computador, vão ficar meio estranhas na tela. Lá vai:

O contato com essa nova figura me levou a revisitar algumas demandas que minha coleção de Max tem, de modo que em breve terei algumas novidades a apresentar. Espero achar o momento de voltar aqui para partilhá-las!

Abraços,

Guilherme 



Escrito por Professor Guilherme Lentz às 18h41
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Novo blog no ar

Olá!

Caso alguém ainda passe por aqui, gostaria de convidar para conhecer meu novo blog, o Bloguinho. Ele representa uma tentativa de levar notícias e atualidades a meus filhos. Basicamente, quero proporcionar uma leitura de qualidade melhorzinha do que o que eles veem na internet por conta própria.

O endereço é http://bloguinhodosfilhos.blogspot.com.br/.

Abraços,

Guilherme 



Escrito por Professor Guilherme Lentz às 11h59
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Certa vez, em um momento de braveza comigo, mamãe me mandou uma tremenda lição de moral: "Você acha que é muito sabichão, mas não passa de um frasista".

Aquilo doeu na hora, mas sempre achei que foi uma das grandes sortes que tive. No silêncio da calma, iniciei um processo de reflexão e autocrítica. Percebi que a mamãe estava certa e que aquela não era a pessoa que eu queria ser.

Desde então, venho me distanciando cada vez mais daquela postura, alimentando a fruição, a elaboração, o aprofundamento na medida do que consigo.

Hoje questiono se aquela foi a melhor decisão, sabendo, de qualquer forma, que não há mais volta. De repente me vejo cercado de bravatas, de frases de efeito, de aforismos baratos, que parecem exercer um efeito irresistível sobre muita gente, enquanto todo aquele carinho que optei por buscar parece ter cada vez menos espaço. Acho que há um ranço autoritário muito forte.

Não tenho mais vontade de partilhar nada. Estou cansado de diálogos frustrantes ou inexistentes. Estou frustrado e solitário. Se pudesse, ficaria fechado em meu casulo e cortaria o contato com o mundo exterior. Não o faço porque sei que há a chance de algo novo sobre os Beatles surgir. Eles são meu único incentivo à sociabilidade.


Escrito por Professor Guilherme Lentz às 11h27
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Domingo de sol

Domingo produtivo.

Pedalada (fiscal, não: meus impostos, diferentemente dos de certas pessoas, são pagos direitinho) para começar;

depois, café da manhã para conhecer a casa nova da cunhada, um convite gentil e um exemplo que toda pessoa civilizada poderia seguir;

depois, palhinha do show do Pato Fu na Assembleia - que não, não estava funcionando, diferentemente de outras assembleias mais honradas, confiáveis, desinteressadas e desinteressadamente celebradas por aí;

depois, clube com os meninos e amigos, com direito a almoço vegetariano buscado no Carrinho;

depois, preparação de provas e trabalho burocrático de escola, porque nesse país não é só deputado federal que trabalha no final de semana não.

E muito disso com a edição maratonística do "Ride the lightnting" me fazendo companhia pelo Spotify.

Ainda ficaram algumas coisas por fazer, mas agora vou acabar o dia com mais um pouco de "O nome da rosa", um tratado de suspense, de sabedoria, de religião, de beleza, de semiótica, de política, enfim, uma obra que todo brasileiro digno desse nome deveria ter orgulho e se sentir na inclinação de conhecer, mas que graças a suas seiscentas páginas está longe disso. Mas para quem se dispõe é uma delícia.

Tudo somado, acho que foi mais um dia que me deixa no sentimento de ter cumprido meu papel como brasileiro, construindo, no que está ao meu alcance, um Brasil não ainda perfeito, mas pelo menos na direção do que deveria ser.


Escrito por Professor Guilherme Lentz às 19h48
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Mãos estendidas

Quinze anos atrás, meu colega Ari, um sábio, disse, em uma recepção no início do ano letivo, que quem é cristão não pode se contentar em perdoar: tem que ir atrás do perdão; não pode só se predispor a se reconciliar com os inimigos, mas tem que tomar a iniciativa de ir atrás do inimigo e lhe estender a mão. 

 

Ari, meu velho... Não se diz uma coisa dessas a uma pessoa de bom coração. Isso foi das coisas mais perigosas que já ouvi na vida. 

 

Você não faz ideia da quantidade de confusões em que me meti por tentar ser coerente com essa proposta. Quantas e quantas vezes banquei o idiota. Pior de tudo: quantos inimigos, veja que ironia, eu criei. No afã de lhes estender a mão, estranhamente acabei despertando neles o ressentimento, a antipatia, a resistência, até a inimizade, em alguns casos. 

 

Eu hoje tenho ainda menos amigos do que tinha há quinze anos. Fico estupefato com o meu poder de, sendo do bem, gerar inimizade e conquistar antipatias.

 

Mas o pior é que continuo concordando com o conceito da coisa. Continuo achando que a gente tem não só que dar a cara a tapa como também que dar a outra face; tem que se dispor, tem que tomar a dianteira na história de fazer a coisa certa, que compreender, perdoar, consolar e tudo mais. 

 

Sei lá. Acho que sou eu é que não sou competente mesmo para esse negócio de ser cristão. Estou sem coragem de estender a mão aos inimigos. Não é tanto pelos tapas, murros ou a indiferença que recebo de volta, mesmo quando é aquela indiferença espinhentinha, sabem como, mas mais mesmo porque toda vez as coisas acabam ficando piores ainda. Uma outra colega disse, anos depois: "Guilherme, a gente não entra nas portas que não nos foram abertas". 

 

Então, não sei mais o que pensar. Por enquanto, vou mantendo as minhas portas abertas. Não sei mais de nada. 

 

Mas, enfim, como o Natal está aí, me pareceu mais condizente lembrar das mãos estendidas do que das mãos fechadas. 



Escrito por Professor Guilherme Lentz às 20h57
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Tirando a cabeça do Max

Olá!

Há um tempão estou devendo a meu amigo Vinícius um tutorial sobre a retirada de cabeça do Max. Vinícius, desculpe a demora!

Mas é mesmo muito fácil. Basta seguir basicamente dois passos:

1. Aqueça a cabeça do Max com um secador ou mergulhando em água fervente.

2. Retire a cabeça com a ajuda de uma chave fina. 

 

Pronto!

Abraços,

Guilherme

 



Escrito por Professor Guilherme Lentz às 15h18
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Dez motivos por que me tornei ciclista

1. Eu me incomodava muito em ser parte de uma máquina poluidora, ruidosa, incômoda e principalmente causadora de mortes; o trânsito.

2. Eu tinha uma relação antiga e afetuosa com a bicicleta, cheia de desdobramentos por várias fases da vida. Eu descobri que meu amor por ela só tinha aumentado nesses anos todos e que o cheiro dos matinhos no início da manhã ou a sensação deliciosa da brisa fria vindo ao rosto só tinha ficado mais intensa com o tempo; e que aquela ardência nas coxas nas subidas mais pesadas não era mais um incômodo, mas um prazer, que me dava um sentimento de poder e realização.

3. Descobri, quando montei com meu pai a primeira bicicleta do meu filho, que todas aquelas emoções estavam fortes ainda dentro de mim. "Meu Deus do Céu... Como é que pude deixar isso sair da minha vida?", me perguntei, quando ouvi o barulhinho da corrente deslizando, tempos antes de resolver usar a bicicleta no trânsito, me dando conta de que a bicicleta, naquele momento, absurdamente não existia mais em minha vida.

4. Eu estava em uma onda de romper o sedentarismo: tinha voltado a nadar depois de muitos anos, tinha começado a correr, tinha saído do armário vegetariano. A bicicleta parecia o próximo e coerente passo.

5. Quando eu via ciclistas, sentia uma melancolia, uma tristeza profunda, que fui percebendo que era, na verdade, uma inveja e um desejo ardente.

6. Depois que comecei a me envolver com o assunto, descobri que a bicicleta é do bem. Além de todas as coisas boas, pedalar me dá a sensação de que estou fazendo um pouco da minha parte para a cidade ser melhor.

7. Descobri que a bicicleta consegue a mágica de conciliar atividade física e prazer.

8. Pedalar é recompensador: a gente consegue fazer coisas que não achava que fosse capaz de fazer.

9. Eu me tocava pela informação de que a bicicleta tem um papel muito mais preponderante no trânsito de vários países tidos como mais avançados que o Brasil. Acho que a gente pode ir nessa direção também.

10. Andar de bicicleta é mais prático do que andar de carro. Tudo fica mais fácil e agradável.

Quando parei de comer carne, eu não tinha consciência de que a carne está no centro de todo um sistema causador de malefícios biológicos, econômicos e sociais. Eu apenas tinha dó dos bichos e não queria participar dessa coisa ruim. Com a bicicleta foi parecido. Não tinha nenhuma atenção de que minha ingênua companheira de infância estava no centro de tantas questões tão complexas e de tantos debates tão acirrados.

É depois que a gente vai percebendo que as tramas estão muito mais emaranhadas do que parecia em um primeiro olhar. Hoje, torço para que as pessoas possam lançar sobre os assuntos um olhar pelo menos de curiosidade e disposição.



Escrito por Professor Guilherme Lentz às 10h53
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Defesa do meu doutorado - 26 de junho

Olá!

Acho que ninguém mais passa por este blog, mas em todo caso vou deixar aqui um bilhetinho sobre a defesa de minha tese, na sexta, 26 de junho de 2015, no auditório 1007 da Faculdade de Letras da UFMG, a partir das 14h.

"Muitas vezes o cara tem doutorado, mas não sabe ser professor."

 

Sempre me senti mal ouvindo essa frase, que infelizmente é comum no ambiente escolar, e pressinto que daqui a dois dias vou me sentir pior ainda.

 

Em primeiro lugar, acho que se trata de uma fala depreciativa a alguém que estudou pra caramba e que só por isso devia ser no mínimo valorizado, principalmente dentro da escola. Cada vez que ouço sinto que estou diante da absurda situação de o estudo ser depreciado justamente no lugar onde ele deveria ser mais sagrado. 

 

Em segundo lugar, não existe isso de "doutorado" e "muitas vezes" junto de "ser professor". Nos meus já mais de vinte anos de carreira, se tudo der certo, acho que vou ser o primeiro que conheço. Honestamente não imagino de que amostragem possa ter saído esse julgamento tão comum e tão taxativo.

 

Em terceiro lugar, sei que não devia, mas costumo tomar isso como uma agressão disfarçada a mim, já que sempre estive envolvido com mestrado, disciplina isolada, universidade, etc., o que é menos comum do que talvez fosse desejável. Às vezes olho ao redor e não posso deixar de me dar conta de que sou o cara em mais condições de ser o alvo daquele ataque.

 

Isso me leva ao quarto ponto, que é o fato de que a carapuça não serve de jeito nenhum. Já fui alvo de algumas acusações ao longo da carreira, mas nunca da de ser mau professor. 

 

Sempre me perguntam "Ah, você está estudando isso para quê? O que vai ganhar com isso?". "Desdém", costumo responder. "Você tem um título, mas isso não significa nada", me disse uma vez, com dedo em riste e tudo, a coordenadora de certa escola onde trabalhei e na qual inadvertidamente me envolvi em um conflito, após descobrir que certa pessoa contrabandeava sem créditos e sem transparência questões elaboradas por certa rede de ensino. 

A triste verdade é que o sistema de ensino tem uma relação muito negativa com a qualificação, seja por despeito, porque a qualificação de uns denuncia a má formação de outros; seja por ideologia, porque a qualificação está na contramão do tecnicismo, que é um grande projeto da educação brasileira, sempre direcionada para a criação de mecanismos massificados e padronizados, que são mais tranquilamente executados por profissionais menos qualificados e mais propensos à aceitação de ações pré-moldadas.

Abraços,

Guilherme 



Escrito por Professor Guilherme Lentz às 20h20
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Cantar em línguas diferentes

Olá!

Acho sim um absurdo um público grosseiro, que não sabe agir com respeito, que, pior do que não ter preparo, não está disposto a se abrir a uma experiência nova.

Dito isso, essa história do Ed Motta me lembrou umas das experiências mais legais que já tive como esse musicozinho xumbreca de três acordes que sou.

Fui chamado por uma colega psicóloga para animar uma festinha de Natal em um centro de acolhida a portadores de transtornos psicológicos onde ela trabalhava. Fiquei meio inseguro, mas fui lá dar uma força em nome da amizade, levando minha então recém-adquirida Epiphone Casino, um microfone e umas caixas de som.

Assim que comecei a cantar alguma coisa dos Beatles, alguém veio lá do meio e pediu: "Toca uma em português?". Hahahaha! Não é engraçada a ironia do destino?

Eu pensei: "Ai, meu Deus do Céu... Estou ferrado... Como é que vou cantar música em português? Eu mal sei algumas dos Beatles". Mas aí me lembrei de uma do Raulzito - e olha que ainda nem tinha surgido a moda do "Toca Raul!" - , que puxou outras e mais outra e mais outra. Essa linha acabou me lembrando de umas da Jovem Guarda, que por sua vez me lembraram umas duas ou três do Roberto Carlos que eu conhecia, o que me trouxe à cabeça os Titãs, o RPM, Paralamas, Gil e assim a coisa foi fondo. Quando vi, o showzinho estava ficando legal, a galera estava curtindo e tal, e achei que era hora de acabar.

Foi quando veio uma das pacientes e me pediu: "Sabe o que seria o sonho que eu mais queria na minha vida? Ouvir uma canção que falasse de Deus".

Pô! Só de lembrar disso fico todo arrepiado! Quem diria que eu ia receber um pedido lindo desse, justamente eu, velho rato violeiro de missas em escolas católicas, embora meus talentos tenham passado a ser sumariamente ignorados nesse sentido?

"Sabe uma coisa? Até que conheço umas duas...", e mandei uma que um amiguinho evangélico da praia tinha me ensinado um tempo antes: "És a minha estrela da manhã... Cordeiro santo, que nos traz a paz", e mais uma, e mais outra, e depois uma do Roberto Carlos que coincidentemente eu tinha ensaiado especialmente para a irmã da escola, naqueles dias: "Essa luuuuz... Só pode ser Jesus!".

Último acorde, a moça veio até mim e me deu um abraço tão chorado, tão agradecido, tão comovido, que eu mesmo acho que fiquei mais agradecido e comovido do que ela.

Foi um dos grandes momentos da minha vida artística. Para competir com esse, só o dia em que fui tocar forró em uma festa junina, e depois veio um casal na beirada do palco me perguntar se eu tinha um cartãozinho. Outra hora eu conto essa.

Então - e olha que nem sou artista nem nada; apenas um roqueiro ficando velho e que de verdade só sabe três acordes, ou cinco, no máximo -, então eu acho isso: que o artista tem que fugir da raia. Sujeito está ali, o lugar é dele. Ele se adapta. Se for pedreiro, se for doutor, se for bonito, feio, sério, dançante, o público está ali: o artista, se quer, se pode, faz a parte dele.

 

 

 

Abraços,

 

Guilherme

 



Escrito por Professor Guilherme Lentz às 19h22
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O suor da corrida

Olá! Postagem no Facebook hoje, que fiquei com pena de deixar se perder.

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Estava ontem jogando conversa fora com a Carol, quando cheguei da corridinha, à noite. Fui até a rodoviária, um trajeto bem fluido e tranquilo em relação às subidas, que há tempo eu não fazia. Daqui até lá e de volta, em um ritmozinho padrão para  mim, mais ou menos naquela faixa dos 5´30-6´ por km, dá quase exatamente uma hora. Lua quase cheia, temperatura amena, brisa com um friozinho de inverno já perceptível lá no fundo, ruas moderadamente tranquilas. Enfim, eu estava com preguiça de sair, como de costume também, mas fui pegando o ritmo e acabei achando que foi uma delícia. 

 

Corrida é assim mesmo, pelo menos para mim. Não tenho aquele prazer chocolatístico que alguns corredores relatam. Para mim, é na disciplina. Toda vez que saio preciso de força de vontade. Rarissimamente acordo cedo animado, com coração já feliz, naquele espírito de "Oba! Vou correr!". Nada disso. Bem diferente da bicicleta, nesse sentido. Ponho o tênis e saio, e é o tempo inteiro no foco, respiração controlada, percepção das passadas, da sensação no pé, na perna, no tórax. Há a consciência do cansaço, diferentemente do que ocorre na natação, mas vem também aquele sentimento de que o momento está bom. Existe a questão do olhar sobre a cidade também, da descoberta de ruas novas ou de detalhes até então impercebidos naquele caminho por onde já passamos zilhões de vezes. Parece a poesia, nesse aspecto. 

 

Prefiro horários alternativos e vias esquecidas. Muito se fala da relação conflituosa entre o motorista e a bicicleta, mas é correndo que me sinto mais agredido. Muitas pessoas mexem com a gente na rua, fazem piadinhas, comentários maliciosos, meio ameaçadores, às vezes. Sempre aparece um playboy bêbado dirigindo um carrão, que começa a me acompanhar devagarzinho com comentários estranhos. "Deve ser assim que as moças se sentem quando são cantadas na rua", penso. Mas de vez em quando dou papo, chamo para correr junto, desafio para uma corrida até a próxima esquina, aquela coisa. Quando chego em casa, estou ensopado. É um banho.

 

Mas ontem eu comentava com ela sobre como esse suor da corrida é diferente. Não é aquela mesma transpiração de quando a gente sente calor. O suor da corrida a gente vê que é o resultado de um filtro mesmo. Eu sinto direitinho que durante a corrida a gente vai eliminando umas coisas, vai se limpando por dentro. Sei que é nojento falar, mas de vez em quando escapa um arroto, e lá no fundo está um gosto ruim, de alguma coisa que, se a gente para para analisar, é de alguma comida de um tempão atrás. De vez em quando, mesmo não comendo carne há anos, acho que ainda elimino um pouco daquele veneno para fora. 

 

É claro que, no meio disso, a gente elimina as coisas mais imateriais também. Frequentemente, sem que eu conscientemente me esforce para isso, me vêm à cabeça, durante a corrida, lembranças de experiências ruins, de sapos engolidos, de desaforos ouvidos, de agressões gratuitas, de situações diante das quais eu não soube reagir. Ao longo dos trajetos, vou refletindo a respeito daquilo, achando espaço para os sentimentos e também os colocando para fora. Vou suando as emoções ruins também. 

 

Quando vem o banho, depois, parece que tudo isso foi escoado junto com aquele sal que fica na pele quando o suor seca. Fica só um sentimento assim de que valeu a pena romper aquela inércia, lá atrás, uma hora e pouco antes. 

 

Pesando tudo, acho que, nesses anos de convívio, estabeleci com a corrida uma relação em tal base que acho que posso sim chamar de prazer. Não é aquele prazer sedutor, fácil e imediato de enfiar uma dentada em um sanduíche vegetariano quando a gente está morrendo de fome. Está mais para aquele sentimento da limpeza e da realização.



Escrito por Professor Guilherme Lentz às 10h48
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Escrito por Professor Guilherme Lentz às 17h12
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Feliz 2015!

Olá!

Sim, ainda existo! Tenho estado mais ativo no Facebook, mas estou por aí. 

Ultimamente tenho me dedicado ao meu doutorado, nas horas vagas. Quase não tenho mexido com brinquedo, não por falta de vontade, mas por falta de tempo e dinheiro. Compro um Lego ou Hot Wheels de vez em quando. De Max Steel ando meio cansado. Acho que não comprei nenhum em 2014. De vez em quando reformo um Falcon para um amigo ou alguém que escreve pedindo ajuda. 

Profissionalmente, continuo na luta como professor de Português e Literatura. Trabalho em duas escolas e em uma delas assumi desde 2014 a coordenação de área, o que tem sido uma experiência legal. 

Com música, continuo muito ativo como ouvinte e pouco ativo como músico. Família ok, atividade física ok. Enfim, tudo indo naquela vidinha mesmo.

Tenho sentido que a barra está mais limpa, que o pessoal andou se esquecendo de mim, e de vez em quando penso em voltar ao blog como um espaço mais meu mesmo. O blog não tinha audiência, mas era mais perene. No Facebook, as pessoas apertam o "curtir", e a gente fica com a sensação de que o que escreveu foi lido, mas tudo lá é muito fugaz, e às vezes tenho pena de coisas legais que eventualmente escrevo se perderem rapidamente.

Enfim, deixo essa mensagem para o caso de algum amigo passar por aqui e se perguntar se ainda estou vivo. Estou. 

Abraços e sucesso em 2015,

Guilherme



Escrito por Professor Guilherme Lentz às 02h25
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Presença de grego

Fico horrorizado com o desrespeito e a falta de educação de uma conceituada empresa de design que fica aqui perto de casa. Quem é do ramo sabe quem é. 

Simplesmente se sentem no direito de, quando lhes convém, inundar a vizinhança com som alto. Dão uma banana para os vizinhos e pronto.

Da última vez, depois de mais uma vez passar pela cruzada infrutífera de telefonar, bater em campainha, tentar apoio da polícia, secretaria disso e daquilo, disque não sei o quê, mandei uma mensagem por Facebook, vejam só. Sujeito respondeu até educado, mandou biscoitinho pedindo desculpa, deu mil justificativas e tudo mais. Fiquei até sensibilizado, apesar de saber que o agressor sempre tem um motivo que, na cabeça dele, ou pelo menos ele assim tenta fazer parecer, é justo. Por inocência e bondade, fui enrodilhado na conversa do sujeito e o perdoei de coração.

Mas bem que meu pai fala: "Malandro não estrila". 

Essa semana, estou ouvindo uns batuques, e ontem simplesmente os carinhas me vão para uma garagem aberta - e não estão nem aí para o resto do mundo. 

Eu acho engraçado, em primeiro lugar, como nunca há contrapartida nas ações corretas que a gente toma. A vida inteira eu fui músico, tive banda, gostei de barulho. Nem por isso incomodei meus vizinhos: é para isso que existe estúdio. Uma vez, na flor dos meus catorze anos, fomos filmar um vídeo na garagem dos meus pais, e logo apareceu uma viatura adequadamente nos mandando parar. Acho incrível que, quando chegue a minha vez de ser vizinho, eu não apenas seja obrigado a conviver com uns trogloditas barulhentos como ainda por cima esteja desamparado pela polícia. 

Em segundo lugar, acho incrível como estou sozinho nessa. Considerando a quantidade de pessoas que reclamam de barulho, era de se esperar que a vizinhança fosse mais solidária. Mas não: não consigo mobilizar o pessoal. 

Em terceiro lugar, não entra na minha cabeça que a PM, disponível para blitz às onze da manhã aqui na mesma tranquila rua, não possa dar o ar da graça nessas ocasiões. 

Quem já teve problema com vizinho barulhento, sabe como é ingrata essa cruzada. Não há o que a gente faça. Ficamos em uma impotência completa, aguentando enfurecidos a agressão. Há quem estoure: pega arma, bate, mata. Não aprovo isso, claro, mas entendo que uma pessoa seja levada a tamanho grau de desespero que, em um momento de fúria e descontrole, cometa um erro como esse. Outros contratam capangas. De vez em quando, fico muito tentado. Se não faço isso, é porque por algum motivo absurdo as convicções são mais resistentes do que a raiva e porque tenho medo de entrar em um caminho que venha a prejudicar meus filhos. Mas fico secretamente torcendo para que alguém não tenha os mesmos escrúpulos. 

Enfim, o barulho é incompatível com a civilidade. 

No momento, estou de mãos atadas com esse vizinho agressor e com outros barulhentos com quem tenho a infelicidade de cruzar de vez em quando. Tenho certeza de que esse despreparo civil deve se manifestar de outras formas na conduta do sujeito e fico na esperança de que isso o leve a se indispor com alguém que esteja em posição de tomar medidas mais efetivas. 

Mantenho, porém, os olhos abertos. Tenho esperança de um dia descobrir um dispositivo eficiente e dentro da legalidade. No dia em que isso acontecer, não haverá conversa, nem desculpa, nem biscoito.



Escrito por Professor Guilherme Lentz às 11h01
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Depois da Copa

Como é que vai ficar o país depois - depois! - da Copa?

Acho que a pergunta que todo brasileiro mais ouviu nos últimos anos foi: "Como é que vai ser na Copa?". Essa pergunta, claro, reflete menos uma curiosidade do que uma constatação do desemparado de uma população que não conta com um serviço público que funcione dignamente. Como se já não bastasse, é forçada a recorrer a serviços particulares que também não têm nenhum compromisso com a coletividade. É dose. Um beco sem saída. 

Diante disso, não é de se estranhar que rolezinhos e passeatas passem a fazer parte do nosso cotidiano. Desorganizados e esvaziados ideologicamente como são, esses movimentos fazem parte de um transbordamento de insatisfação, que tem muitos outros resultados menos emblemáticos e que geram menos preocupação nas autoridades.

Tanto o "Como é que vai ser na Copa?" quanto a preocupação das autoridades com as manifestações populares têm como fundo o medo de o brasileiro constranger o estrangeiro que virá ao país. O que está em pauta é aquela velha atitude da mãe severa, que, ao receber visita de cerimônia, adverte a filha travessa: "Não vá fazer feio, viu! Experimenta ser malcriada na frente das visitas e vai ver uma coisa!". 

Está lá o brasileiro parado na fila, do aeroporto, do metrô ou do hospital, mas ele, solidário, não está preocupado consigo mesmo: está com medo é de como a situação ficará na época da Copa! Nem parece que somos nós, e não o público dos jogos, que temos que sofrer impotentes esses desmandos todos os dias. 

Afinal, para quem queremos o Brasil? 

Durante muitos anos, inúmeros projetos para o país foram feitos com base na Copa. Chegado o ano do campeonato, poucos se concretizaram. O sonhado metrô belo-horizontino, por exemplo, não saiu. Sem a pressão das visitas chiques, parece improvável que o assunto volte a entrar em pauta.

Mesmo que fosse par fazer bonito para quem não vive aqui, mesmo que fosse pelos motivos errados, parecia haver alguma esperança de avanço dos serviços para o brasileiro. Chegou 2014, porém, e pouco se vê.

Enfim, estou pouco incomodado com o que acontecerá durante a Copa. Estou preocupado é com o que vem depois. As poucas mudanças cosméticas que foram feitas em alguns pontos das cidades certamente darão novamente lugar ao abandono de sempre, e nem convém pensarmos em demandas menos superficiais.



Escrito por Professor Guilherme Lentz às 11h00
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Primeira fase dos Beatles

Ainda que eu achasse que o comentário fizesse sentido, eu me recusaria a publicar algo depreciando "I wanna hold your hand", "She loves you" e a erroneamente chamada "primeira fase" dos Beatles. 

Acho o fim da picada sujeito escrever texto dizendo que essas canções eram ingênuas, simplistas, blá, blá blá. Não digo isso porque esse comentário seja completamente injusto e desprovido de um mínimo de respaldo argumentativo ou histórico. Também não digo isso por ter antipatia desse tipo de bravata de quem gosta de aparecer através de falsas contundências, de polemicazinhas artificiais em cima de meras provocações.

O que me incomoda mesmo é o senso comum, sinceramente. 

Os Beatles não precisam de defesa; não é o desmerecimento deles que é chato, até porque fica feio é só para o agressor mesmo, que fica com aquela cara de bobo.  

Enquanto isso, o senso comum, em ambiente especializado, não tem perdão. Sujeito profissional, jornalista, escritor, crítico de música publicar sobre os Beatles para dizer que a primeira fase era frívola? Será que essa pessoa já leu algum outro texto a respeito do assunto? Será que ela tem consciência do nível de ignorância que ela está demonstrando? Será mera prepotência mesmo? Estará ela convencida de que essa discussão representa algum avanço na discussão sobre os Beatles? 

Facebook é uma coisa. Isso aí é uma grande mesa de bar, certo? Todo mundo apresenta sua grande filosofia de vida. Quando escrevemos, achamos que somos reis, mas sabemos que de verdade essas são todas palavras ao vento. Amanhã, tudo passou. É natural que existam muitas generalidades, muita visão imediata, irrefletida, até. Não é crime condizer com o senso comum nesse espaço, embora a situação pudesse ser diferente. Com tudo isso, não é raro nos surpreendermos, no Facebook, com algo muito legal.

Texto publicado, em jornal, revista, livro, publicação especializada, é bem diferente. O autor tem obrigação moral de saber do que está falando. Se não tiver contribuição a oferecer sobre seu tema, que não publique. Quando o sujeito escreve em uma revista algo do tipo "a primeira fase dos Beatles era simplista e ingênua", eu levanto uma das seguintes três hipóteses:

1. ou esse cara é tão ignorante que, além de não saber do que está falando, ainda acha que essa tese nunca foi discutida;

2. ou esse cara é um provocador infantil;

3. ou é tão arrogante que vê relevância em tudo o que escreve.

Os Beatles são um assunto muito rico. Lembro uma entrevista com uma pesquisadora da Amazônia, dizendo que qualquer pesquisador sério que entrar na selva com o objetivo de descobrir uma nova espécie vai sair de lá com essa objetivo cumprido. Com os Beatles e a reflexão, a situação é semelhante. É muito condenável essa repetição boba.



Escrito por Professor Guilherme Lentz às 10h39
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