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Curtindo os Beatles

(clique sobre o botão de play na barra e deixe rolando enquanto lê...)

Olá!

Como se sabe, o ser humano é capaz de muitas façanhas maravilhosas. Amar e fazer arte são as minhas preferidas.

Tenho essa ideia para uma história. No dia do juízo final, o Tribunal Celestial estará reunido para deliberar, e a humanidade estará no banco dos réus. O Procurador Eterno fará sua exposição, apontando para a humanidade, encolhida, enquanto mostra imagens horríveis em um telão e vocifera para os demais juízes: "Nazismo! Guerras! Drogas! Crimes! Omissão! Abandono! Devastação ecológica! Crueldade! Inveja! Doenças criadas artificialmente! Essa entidade deve ser banida da existência e punida por toda a eternidade!", concluirá, enquanto a humanidade, ciente de seus pecados, ficará encolhida em seu assento, os olhos baixos. Os membros do Tribunal trocarão olhares, balançarão a cabeça, desgostosos com as ações da filha rebelde, por quem o próprio Criador, na forma de seu filho, ofereceu-se em sacrifício. O Juiz erguerá o martelo, severo: "Se não houver mais considerações, estou pronto para ditar a sentença". Todos trocarão olhares de cumplicidade.

Mas, nesse momento, um velho membro do Conselho, que se terá mantido calado até então, erguerá o dedo e dirá, um pouco timidademente: "Mas... e Guimarães Rosa?". Todos se assustarão um pouco: "O que disse, irmão?". E ele insistirá: "E Michelangelo? E Leonardo? Cervantes? Camões? D.Dinis? Machado de Assis? Drummond? Gaudi? Monteiro Lobato? Van Gogh?". Um murmúrio confuso de fará no recinto, enquanto os juízes trocarão uns com os outros ponderações ignoradas, em um sinal de que um novo tipo de consenso se formará. O velho questionador esperá até que o ambiente se acalme e, inclinando-se um pouco, encarará vitoriosamente seus colegas: "E os Beatles?".

Esse será o fim da história. Acho que, no final, a arte vai redimir a humanidade.

Outro dia escrevi que os Beatles são a mais comovente demonstração do potencial artístico humano e depois fiquei pensado em como isso é verdade. No livro que acompanha a mais recente edição do filme "Help!", alguém - Martin Scorcese, se não me falha a memória - diz que, celebrados como são, os Beatles ainda são subestimados, tamanha é sua contribuição. Eu concordo muito com isso. Acho que a humanidade não se dá conta da riqueza artística dos Beatles. Para mim, não existe criação artística que se compare a eles. Nem a Capela Sistina, nem as pirâmides do Egito, nem a Muralha da China, nem a Monalisa, nem Homero, Shakespeare ou Guimarães Rosa, nem mesmo a Vênus de Milo. Minha impressão é de que a obra dos Beatles tem que ser avaliada em outra escala; é uma força da natureza.

Nessa semana em que celebramos a existência dessa beleza, vou terminar com mais uma canção deles aqui, em mais uma mixagem que estava inédita em CD oficial. Essas duas obras-primas que este texto de hoje acompanha estã entre aquelas joias que o grande público às vezes deixa escapar, que não entram nas coletâneas ou edições comemorativas, mas que exibem um bilho faiscante quando as olhamos de perto.

Abraços beatlemaníacos,

Guilherme



Escrito por Professor Guilherme Lentz às 13h43
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09.09.09

(Clique sobre o "play" e deixe rolando enquanto lê...)

 Olá!

Já dizia a canção "Revolution 9", dos Beatles: "number nine... number nine... number nine...".

Esperei vinte anos por hoje, o dia B: o dia dos Beatles. Começou a ser vendida hoje a discografia dos Beatles remasterizada, algo pelo que os fanáticos como eu vêm esperando há muitos anos.

O que é masterização e por que isso é importante?

Masterização é o processo de transferência da gravação final para um formato que possa ser usado pelo público final, como CD ou vinil. Nessa fase, são possíveis alguns ajustes no som. Durante esse processo, os responsáveis têm que levar em conta o tipo de equipamento à disposição do público e pensar em como o material vai soar para esses ouvintes.

Os discos dos Beatles foram masterizados com referência na tecnologia de áudio da época, que obviamente é bem inferior à de hoje. Com o que temos agora, é possível ouvir a música com muito mais clareza, mais beleza, mais detalhes do que na época. Para isso, porém, era preciso que os discos fossem remasterizados, para que se pudesse tirar das fitas originais o maior aproveitamento. 

Os CDs antigos eram todos feitos a partir das mesmas matrizes analógicas que já existiam, exceto o Rubber Soul e o Help, que foram remixados nos anos 80. Mesmo que uma remasterização tivesse sido feita, nada impediria que uma nova remasterização fosse desejável agora, vinte anos depois, para que a qualidade dos CDs pudesse acompanhar a evolução da tecnologia para tocar música à disposição do público. Da forma como os CDs vão sair agora, vamos ouvi-los com mais clareza, mais potência, mais brilho, mais realismo.

Além disso, teremos disponíveis no mercado, pela primeira vez na era do CD, gravações mono e estéreo dos discos dos Beatles. As gravações mono e estéreo existem porque os Beatles produziram sua obra num momento em que a tecnologia de gravação e publicação de música estava atravessando a transição do fomato monofônico para o estereofônico. Muitas pessoas ainda só tinham ou simplesmente preferiam o equipamento mono, ao mesmo tempo em que havia a demanda pelo novo formato, que permite a separação dos sons em duas caixas e, portanto, maior nitidez e ambiência, ou seja, a sensação de que o som tem profundidade, como acontece quando estamos dentro de um ambiente com um músico executando seu trabalho sem aplificação artificial. Para atender aos dois tipo de público, a equipe dos Beatles sempre criava pelo menos duas mixagens diferentes de cada trabalho, uma estéreo e uma mono, sendo que uma muitas vezes não era mera reprodução da outra, mas uma nova montagem da gravação, com diferenças mais ou menos significativas. Em alguns casos, as diferenças são importantes mesmo, e é por isso que os fãs vêm querendo as mixagens mono, fora do mercado há tanto tempo. Com o vitória do estéreo, a partir do final dos anos 60, essa questão das mixagens diferentes deixou de existir regularmente.

Eu ouvi os Beatles pela primeira vez em 1989, através de um exemplar monofônico do "Help!" brasileiro, que peguei emprestado na casa da minha avó e devolvi em um trágico momento de loucura. Aquela lasca de vinil mexeu comigo; na verdade, ainda não me recuperei do choque de ouvir um álbum tão fenomenal. Era lindo, o "Help!" mono brasileiro, diferente de todos os outros. Ele trazia as faixas do filme em um lado e canções diversas no outro, como "PS I love you" e "I´m down". Naquela época, eu sequer conseguia identificar quem cantava em cada canção, quanto mais perceber que existia algo como mixagens mono e estéreo. Como eu poderia ter adivinhado que o Paul fazia todas aquelas vozes diferentes? Eu não tinha um preparo para ouvir música nem nada. Isso eu aprendi com o amor pelos Beatles. Uns dois anos depois, eu estava por acaso ouvindo o Past Masters com fones de ouvido em um K7 que eu tinha gravado e notei o estéreo de "I wanna hold your hand" pela primeira vez. Foi quando comecei a prestar atenção nos dois canais, mas ainda demorei para perceber que os quatro primeiros CDs eram em mono, ao passo que alguns discos de vinil que eu tinha eram esterofônicos. Em mais um ano, aproximadamente, eu descobriria a existência das versões em mono do "White album" e do "Sgt.Peppers". Desde então venho progredindo como ouvinte.

Acabei me tornando fã da mixagem mono. Ela tem um conforto que o estéreo não tem. Não é nada que eu note se estiver ouvindo distraindamente a um fundo musical, mas, se comparo as duas versões, meu coração dá uma parada.

A propósito, há alguns anos eu consegui reaver aquele "Help!" brasileiro! Em uma brincadeira bem da família, escrevi uma cara para o Papai Noel, contando toda a história e falando sobre como aquele LP tinha mudado minha vida. Meu pai ficou tocado pela história, visitou todo mundo, revirou a casa da minha avóe acabou achando o disco na casa do meu tio. Na manhã de Natal, lá estava ele, embrulhado em papel azul, sobre o meu sapato, embaixo da árvore. É claro que é meu item preferido da coleção.

Quem poderia supor que, além da música incomparável, os Beatles ainda nos proporcionariam todas essas experiências incríveis? É uma riqueza enorme amar os Beatles. Eu tenho muito orgulho desse amor; e sou muito grato por eles terem sido colocados em minha vida.

Hoje, enquanto anda na rua, mal podia, como já me aconteceu em outros dias de glória dos Beatles, acreditar que o mundo continuasse funcionando da mesma forma, indiferente ao fato de que a mais comovente demonstração do potencial artístico humano jamais existente estivesse ao alcance de todos, nessa nova forma. Eu só pensava nas minhas duas caixinhas, uma como os CDs mono e a outro com os CDs estéreo, que estão vindo da Inglaterra para mim.

Boa audição a todos!

Um abraço,

Guilherme



Escrito por Professor Guilherme Lentz às 23h05
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Up

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ATENÇÃO!

ESTE POST CONTÉM INFORMAÇÕES SOBRE O FILME "UP". NÃO O LEIA SE NÃO QUISER SABER SOBRE FATOS PRESENTES NO FILME.

 

Olá!

Fui ontem ao cinema ver "Up", que minha esposa aguardava ansiosamente há meses. Sei até que a Hot Toys, que não perde mais nenhuma, vai lançar em breve umas figuras inspiradas no filme, que parecem lindas, como tudo o que a empresa faz. O filme em si, porém, agradou mas não vai mudar minha vida.

Tudo é muito bem feito, mas há alguns inconvenientes. O tipo de cenário, bem desolado, é já lugar comum das animações digitais. Parece que os produtores criam isso para não terem que se preocupar com detalhes demais dos cenários. A narrativa passa por um bom momento inicial, mostrando a vida a dois do protagonista e sua amada, mas depois não mantém o mesmo pique. A aventura do velhinho Carl e de Russell caminha para uma redenção e uma mensagem edificante, mas não há realmente, no trajeto deles, nenhuma experiência que proporcionasse uma transformação profunda. Achei também que o filme usa alguns clichês do lirismo, como saudade da mulher amada, criancinha abandonada, sorvete, balões, cachoeira, cachorrinho e assim por diante. "Carros" conseguia um efeito muito mais tocante, sem apelar para nada tão óbvio. A animação tridimensional também não me impressiona tanto, ainda mais considerando os altos preços que estão cobrando por ela. Enfim, boa parte do filme é só um reempacotamento bonito de muitas receitas que já estamos acostumados a ver.

Desde, talvez, "Nemo", os produtores de animação vêm usufruindo do poder de tocar nossos corações, mas, ao invés de isso ser um saudável efeito colateral de um trabalho bem realizado, já se tornou uma proposta em si, e já existe toda uma técnica especialmente desenvolvida para isso. Resultado: as obras estão menos espontâneas, mais apegadas a estratégias, mais previsíveis. O efeito está se perdendo. Se a animação quiser sua caminhada como um gênero dominante no cinema americano e digno de respeito do público adulto, vai ter que resistir a essa tentação pela facilidade.

Entre os pontos positivos, gostei muito do personagem do aventureiro desaparecido, ídolo de infância de Carl que sumiu para provar uma descoberta e reaparece, muitas décadas depois, como um recluso eremita na floresta tropical, diante do maravilhado protagonista, apenas para se revelar um enlouquecido vilão. Tenho certeza de que esse personagem foi inspirado por Charlton Heston, que propiciou exatamente as mesmas três sensações que o vilão do filme: (1) maravilhamento quando era visto nos filmes antigos; (2) surpresa quando descobri, anos e anos mais tarde, que ainda estava vivo; e (3) decepção, quando soube que ele estava envolvido em uma cruzada a favor do uso de armas. Até o tipo físico deles é parecido.

Isso acaba tendo a ver com o grande tema do filme, a decepção. Apesar do título, "Up" é realmente um filme melancólico, que mostra que todos os projetos de vida de Carl e Russell foram frustrados. O herói de infância era um engodo; o filho sonhado não existiu; o pai ausente nunca chegou; a grande cerimônia era um encontro em um auditório vazio; nenhuma fantasia se realizou. O filme mostra que a vida é mesmo uma demolidora de sonhos.

Se mesmo assim ele escapa do baixo astral e transmite a alegria sugerida pelo título, é por uma lição em que acredito muito: a realização amorosa é o que dá sentido a nossas vidas. É difícil imaginar que um velhinho dedicado e esperto como Carl tivesse tanta dificuldade para se dar conta disso.

Abraços,

Guilherme



Escrito por Professor Guilherme Lentz às 19h17
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