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Blog do Lentz | |||||||||||||||
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20 de setembro de 2009 (Clique no play e deixe rolar enquanto lê...) ("Great balls of fire", em Belo Horizonte, gravada por mim) Olá!
Vou contar uma história com final feliz. Eu tenho heróis vivos, e esse ano tive o privilégio de ver alguns deles de perto. O mais recente é o mais polêmico: o Killer - Jerry Lee Lewis! Criador de alguns dos mais fenomenais momentos da história do rock´n´roll, ele tem um estilo vocal único e toca um piano muito selvagem e irresistível. Com mais de setenta anos de idade, continua arrasador e lançou recentemente o que vem sendo considerado o melhor álbum de sua carreira, "The last man standing", um trabalho de fato excepcional. Ele sempre foi uma figura polêmica. Nos anos 50, iniciou brilhantemente sua carreira e lançou uma série de gravações de muito sucesso. Seu caminho ao estrelato, porém, foi interrompido quando ele se casou com sua prima de 13 anos, conquistando a reprovação geral e jogando sua carreira no lixo. Jerry Lee, um teimoso, nunca deu o braço a torcer. Orgulhoso, arrogante e valentão, continuou sua carreira aos trancos e barrancos, tocando em lugares menores e lançando discos ao vivo de qualidade variável. Essa conduta errática cobrou seu preço do ego do grande pianista do rock´n´roll, que sempre bebeu muito e se meteu em algumas confusões menores. Entre alguns saltos e muitas quedas, porém, Jerry Lee continuou na ativa e foi escrevendo seu nome na história. Meu primeiro contato com ele, é claro, foi através dos Beatles, para quem Jerry Lee Lewis foi uma grande inspiração, principalmente o John. Depois, como muitas pessoas, conheci um pouco da vida dele através do filme "A fera do Rock" ("Great balls of fire"), em que foi interpretado por Denins Squaid, um dos meus atores preferidos. Sempre fui fascinado com o fato de que o Jerry Lee havia regravado suas canções, em pleníssima forma por volta dos cinquenta anos - o que me parecia muito, na época -, para o filme. A cena final é um desses momentos que estão cravados no meu coração. Jerry Lee entra com sua esposa adolescente em uma igreja onde seu primo pastor está pregando um sermão contra a música do diabo. Ele vira expulsa o Jerry Lee da igreja e diz "Você vai para o inferno!", ao que o topetudo protagonista responde: "Posso ir para o inferno, mas eu vou tocando o meu piano". Numa outra cena real e antológica, o veterano Chuck Berry se recusa a abrir o show para o novato Jerry Lee Lewis, que, galantemente, aceita ser a atração inicial. Quando entra no palco, porém, enlouquece. Pula, dança, sobre ao piano, toca e canta freneticamente, encerrando a apresentação com um gesto que marcaria toda a sua carreira: toca fogo no piano e termina o show com o instrumento em chamas, enquanto ele manda ver no teclado. Inesquecível! O público vai à loucura, e Jerry Lee, ao sair do palco, cruza com um atônito Chuck Berry e diz: "Pode ir fazer o seu show. O público é todo seu". No final do filme, aparecia um texto que contava os caminhos tortuosos da carreira do cantor, mas encerrava assim: "Jerry Lee Lewis ainda está em algum lugar da América, tocando pelo coração." Essa frase resume meu ideal como músico. Se um dia eu sumir também, saberão me procurar através dela. Por tudo isso, eu sempre adorei o Jerry Lee Lewis. Quando eu o conheci, era adolescente e estava eu mesmo de olho nas meninas de treze anos. Nunca tinha ouvido falar de pedofilia e não conseguia entender por que tanta polêmica ao redor do casamento dele com a prima. Agora, adulto, entendo, é claro, mas sei que essa questão era muito diferente nos anos 50, tanto que o casamento se realizou, por absurdo que possa parecer, de acordo com a lei da época. Pesando tudo, esse é para mim, um erro menor, no caso dele. Fora isso, ele não tem nenhum crime digno de condená-lo ao inferno. Tem por outro lado, uma história fascinante e uma obra fenomenal. Eu nunca sonhei em vê-lo ao vivo. Quando ele veio ao Brasil, em 93, eu era novo, muito dependente, e não pude ir a São Paulo ver o show. Sei que ele tocou bêbado, nervoso; que ele foi rude com a plateia e tudo mais. Mesmo assim, sempre tive muita tristeza por ter perdido essa apresentação. Nunca pensei que teria outra chance. Mas tive! No dia 20 de setembro de 2009, Jerry Lee Lewis chegou a Belo Horizonte para uma noite que eu nunca vou esquecer. Comprei o ingresso com muitas semanas de antecedência e cheguei cedo no dia. O Music Hall é compacto, e pude ficar colado no palco. Aespera pela hora certa foi apaziguada pelo encontro com meu querido amigo Edinei e uns camaradas levemente alterados que estavam por perto, e ficamos comentando os clipes que estavam no telão. O show de abertura foi fenomenal, levado por uma banda de São Paulo que fez um rock´n´roll simples mas muito competente. Fiquei maravilhado com a apresentação deles, lembrando de uma cena do filme "De olhos bem fechados" em que a personagem da Nicole Kidman diz ao personagem do Tom Cruise que se interessara por um cara e que, se ele a tivesse convidado para fugir, ela teria largado tudo ali. Pois se o pessoal daquela banda tivesse me oferecido um emprego de guitarrista, eu jogava minha carreira para o alto e ia viver de rock também! Confesso que cheguei a ficar com pena do Jerry Lee Lewis. Sabia que ele estava velho e decadente, e de todo o coração eu tinha certeza de que ele jamais poderia superar aquele incendiário grupo de jovens. Eu havia visto o show do Chuck Berry recentemente, e, mesmo estando em muito melhor forma do que o Jerry Lee, ele não tinha feito um grande espetáculo. Mas tudo bem: o que eu queria era ver a lenda. Quanto erro... Assim que a banda do Jerry Lee Lewis subiu ao palco, eu soube que não tinha para ninguém. Imediatamente, à medida em que os coroas iam sacando suas guitarras dos estojos, ficou claro que aquela banda de São Paulo, por mais legal que fosse, não passava de uma pálida imitação. Elegantes, maduros, magníficos, os músicos do Jerry Lee Lewis mostraram logo o que é um show de verdade, deixando todos de boca aberta com alucinantes duelos de guitarra. Quando a estrela finalmente entrou no palco, fiquei apreensivo de novo, por um momento. Os anos de bebida certamente deixaram sua marca no Killer. Aos setenta e poucos anos, ele aparente facilmente bem mais de oitenta. Curvado, trêmulo, enrugado, com andar cambaleante, aspecto frágil, ele é mesmo uma memória distante do galã de de cachos dourados que calou a boca do Chuck Berry com um piano em chamas e uma música incendiária. Minha apreensão, porém, durou pouco. Assim que encostou os dedos no piano, ele era um Jerry Lee Lewis ainda melhor do que o garoto arrogante de antigamente. Durante algumas dezenas de minutos, ele deixou todos boquiabertos com clássicos como "Down the line", "Mexicali Rose", "Roll over Beethoven" e o novíssimo single "Mean old man". Para encerrar, ele mostrou duas performances matadoras de "Great balls of fire" - que serviu de fundo a este post, vide a barra do DivShare no início - e "Whole lotta shaking going on". Na saída, não consegui o autógrafo, mas estava bem perto dele quando ele saía, menos de um metro, e pude ouvi-lo dizer, aparentemente com muita dificuldade, ao segurança: "Tell them I´m thankful". Aí falei bem alto, com todo o pulmão: "Thank you, Jerry Lee Lewis! God bless you!". Entre tantos momentos memoráveis, o show proporcionou ainda algumas curiosidades. O Music Hall inacreditavelmente não tem um acesso para o artista entrar sem ser notado. Foi por isso que pude estar tão perto do Jerry Lee na saída. Foi por isso também que o show de abertura teve uma emoção ímpar, quando o astro chegou, escoltado pela segurança, atravessando a plateia. Notei que os músicos dele se responsabilizaram pelo próprio equipamento, guardando as próprias guitarras e a bateria, no palco, enquanto ainda havia gente na plateia, sem nenhum tipo de afetação e esnobismo que são característica de músicos muito menos merecedores de respeito. Fiquei muito tocado com isso, porque sempre me admiro com a simplicidade de pessoas inegavelmente valorosas e merecedoras de honras, em contraposição à prepotência dos incompetentes e estúpidos, que, infelizmente, infestam o mundo. Voltando, caminhei um quarteirão com o Edinei e o João Paulo, filho dele, muito agradecido por ter compartilhado esse momento com eles, pessoas tão especiais em minha vida. Entrei no carro e ligei o play da câmera, ouvindo minhas gravações enquanto dirigia na calada noite de domingo, absorvendo o show e comparando os registros do jovem e arrogante Jerry Lee Lewis ao frágil e profundo senhor que eu acabara de ver. Ele fez um show simples, bonito, profissional no melhor sentido do termo. Estava bem vestido, no que foi acompanhado por toda a banda. Pensava em como é possível tanta porcaria em tanto lugar, quando, afinal, fazer um bom espetáculo não exige muito mais do que um pouco de carinho. Ao mesmo tempo, sentia que as lições que eu recebera naquela apresentação ainda não estariam completamente assimiladas por muito tempo. A voz dele sem microfone, com aquele sotaque muito carregado, continuava soando no meu ouvido. "Tell them I´m thankful". Eu me senti também muito agradecido por toda a noite. Cada dia dos dezesseis anos que se passaram desde o show perdido de 93 valeu, para que eu pudesse me preparar bem. 20 de setembro de 2009 foi um dia para eu não esquecer. Abraços, Guilherme
Escrito por Professor Guilherme Lentz às 14h49 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] |
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